22 de mar de 2010

Esconder a dor

Cada vez mais pessoas esbarram no desejo de se auto-afirmarem perante a sociedade, neste impasse de inserção derrubam o que vir pela frente, no intuito de se mostrarem persuasivas, manterem suas idéias unânimes e não terem questionadas ou contestadas suas ideologias consagradas pelos velhos livros.
O maior problema dessa guerra de auto-afirmação e ideologias disformes é o egoísmo gerado, a falta de sensibilidade e compreensão, a hipocrisia...
Se eu não acredito em um deus (cristão ou não), se não coopero com as normas estabelecidas, se minhas verdades são diferentes da maioria, automaticamente... exclusão! Por que exclusão? - você perguntaria, mas facilmente eu responderia, a exclusão vem dos olhos de condenação, certo repúdio e as frases do tipo: “tenho muita dó de você”.
Não digo isso por sustentar que a visão cética que tenho do mundo e dos acontecimentos ditos milagrosos me livrem do sofrimento, não poderia eu imaginar que a realidade de quem pensa diferente da maioria seria tão exclusiva e preconceituosa, abominável às vezes.
A perda de uma pessoa amada, um irmão, pode deixar rastros penosos, essa perda que me acompanha não pode ser esclarecida, essa dor não tem remédio, não por agora, mas o que sinto não pode ser aberto, não tem ouvidos dispostos a ouvir lamentações, as frases são quase sempre as mesmas, “ele está num lugar melhor”, “o tempo apaga essa dor, deus ajuda a amenizar”... Mas quem pode ter certeza disso? Oras ninguém sabe onde ele está!
Livrar-se dos tormentos partirá de uma jura solitária, de abdicação da dor pública, uma honrosa participação na sociedade. Juntar os cacos espalhados e consolidar através da poesia uma brandura vinda apenas das palavras que não foram a nós diretamente endereçadas. Lendo Álvares de Azevedo na madrugada e escrevendo textos desconexos e atravessados, pois com essa linha poderia seguir dias acordada.

“Sombras do vale, noites da montanha
Que minha alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!”
Lembrança de morrer, Lira dos vinte anos. Álvares de Azevedo.

16 de mar de 2010

Diálogo da confissão implícita.

_Não entendem.
_Quem não entendem, o que não entendem, por que não entendem?
_Apenas não entendem. Preciso esmiuçar?
Uma silenciosa dúvida maquinava pelo ar.
_Realmente, sou mais um desses que não entendem.
Sorriu a primeira interlocutora, continuando a baboseira.
_ Não viu, há tempos tenho lhe dito, não sei a razão pela qual você não entende.
_ De qual maneira eu entenderia um discurso tão dilacerado?
_ Apenas ouvindo.
_ Então diga.
_ Você não entenderia...

9 de mar de 2010

Será que acordei?

Acordei de um puta pesadelo e fiquei com o medo sobre a carne.
A sensação que algo ruim iria acontecer sombreava o ambiente, o desejo de correr era detido pela realidade, um sol escaldante que batia lá fora.
Resolvi comprar algo que me ajudasse a melhorar o dia, comprei uma bolachinha metade coco metade chocolate, formato de rosquinha, fiz um café solitário pra acompanhar e decidi dar uns tragos fumacentos logo após.
Então na dissipação do medo, o derivado do pesadelo surreal, fui retornando vagarosamente ao ponto de equilíbrio, não que eu tenha perdido completamente o medo, mas a redoma do sonho é mais pesada, a realidade por si já cruel o suficiente.