11 de dez de 2010

A negra água

Seria redundante dizer que essa melancolia é negra, que se espalha pelo corpo como os poemas de Azevedo...
Simplesmente traduzida num olhar profundo, uma inquietação dilacerante que se perde nos sonhos de um sono profundo.
Como em uma crônica dizer sobre esse dia, que nada mais foi do que uma cascata de calor corrompendo as certezas, abalando a sanidade.
Já não há um sorriso despreocupado, não há mais ruas em que o pensamento não se enquadre no niilismo.
Acabou uma fase que foi a razão. Já iniciou uma fase que não existe perdão. São as malditas dúvidas, a companheira negra...
Quando os olhos azuis cansados de uma alma pura choram o passado estraçalhado, o presente comprometido e o futuro ignorado, não há perdão.Somente uma angustia que necessita ser compartilhada.
O que seria o amor? As paixões impossíveis, seria o ser idealizado?
O egoísmo divide espaço hoje com a contradição, ele esbarra e se confunde com remorso.
Medo! E somos traídos por nós mesmos. No desejo, no ímpeto, pelos cheiros...
Vou me desligando da realidade, assim eu vivo. Apenas quando não penso na muralha que me separa da onírica paisagem que cega meus olhos. Mas hoje, apenas a melancolia. Rabiscada pelos mais dolorosos caminhos seguidos e ignorados.

8 de out de 2010

Escrevi duas cartas que não puderam ser lidas. Estão no vazio de uma imensidão impensável.
Nelas depositei meu coração, foram vitórias não comemoradas, lágrimas quase derramadas, alguns gritos presos no espaço de um botão.
Não precisaria escrever com palavras bonitas, não, realmente meio som já exprimiria tudo que parte daqui, daqui de meu medo.
Confundo-me nesse medo, parece outra situação, não o medo, sim a paixão. Não tenho como apontar a direção certa de nada. O que penso me basta. Explicar? Jamais teria meios para isso.
As cartas que no vácuo foram jogadas ainda clamam por mim. Uma poesia entrecortada, uma denúncia implícita de uma falsa jornada.
Não, não as lerei jamais. Nem eu, nem você, talvez ninguém.

13 de set de 2010

Notas de uma tarde vazia

Para preencher o vazio dos dias, palavras
Soltas, belas, inventadas, aleatórias, minhas
Não com versos rimados e medidos, jovens.
Na liberdade da juventude dos velhos dias.

Palavras que enfeitem o céu esfumaçado
A seca e implícita agonia do inverno quente
Tormentos que batem à porta incisivamente
Somente consternações de uma mente, inlúcida

Cabíveis são as interpretações para as coesões
Textos seguem sem coerência e os leio bem
Pois de tudo que cerca no vazio da tarde
As letras que formam essa evasão extralinguística
São ainda a razão da permanência sôfrega
Contudo das notas que saem de alguma melodia.

13 de ago de 2010

Suposto conto de um dia santo




Quando acordei senti meus olhos pesados. Foi necessário levantar bruscamente por conta do horário, sempre vinte minutos atrasada.
Logo que o pé alcançou o chão, desastre. Não é inerente à personalidade cética da minha pessoa uma conduta supersticiosa, mas foi o pé esquerdo!
Quando o frio alcançou meu dedão já era tarde, o que minha consciência na efervescência duma manhã de sexta feira poderia calcular que retirasse o peso instantâneo daquele relapso?
Simplesmente Clarice, acho que este nome me persegue, vou ao banheiro com ela, as tardes passam-se todas em função dela. São planos, são teses, são ideias repetidas, originas apenas para uma pessoa, que não é deste mundo, eu.
Essa subjetividade que carregou a manhã não é proposital, não finjo os lapsos de memória e nem a loucura lancinante que parece aflorar a cada voz que soa pelo telefone.
Uma acusação grave foi feita a mim nesta manhã, uma pessoa que lesa outra... Não tenho o costume de apropriar os direitos alheios e conservar uma falsa conduta, pelo menos é isso que penso. Então a lembrança do pé errado tocando o chão da depressão assoladora dos meus dias deste ano volta abruptamente e tento fugir desesperada pela porta imaginária dessa vida alternativa. Eu posso escolher, sempre escolho errado.
A Malu chora silenciosamente e em seus olhos a lágrima cristalizou-se em desesperança, o aval foi cortante e meu pseudo-espírito quase saltou da minha garganta: pouca esperança.
_ São só cinco anos doutor, ela é muito jovem amável e obediente.
_ ... É.
E assim vai a tarde, precisa mencionar que é sexta feira 13? Acho que não, se ao menos neste momento eu estivesse agarrada ao meu ideológico idílio da concepção científica dessa merda de vida. Merda de vida! Sim, talvez, não, pra você talvez não. Pra mim talvez e sim.
O que encerra a noite é a solidão de uma casa meio vazia, comigo dentro e o livro folheado sobre o sofá, da Clarice é claro, e um dos mais subjetivos de sua carreira, ainda não li, mais sei que faltam personagens, e eu por consequência serei para ela um deles. Queria estar deitada ao lado do amor platônico, mas hoje é sexta feira 13.
Perguntaram-me hoje se eu acredito em deus. Foi a primeira vez que escuto tão incisivamente tal pergunta, que veio através de um prefácio: olha não sei se deveria perguntar, mas achei intrigante conhecer alguém assim. Palavras implícitas num olhar dicotômico, piedade e repreensão. Hoje realmente não foi meu dia, nem um dia santo. Mas algo foi produzido por ele, um colapso matalinguístico sufocou meu silêncio e me impeliu para a tão afastada dor da falta que você faz.
Isso é um conto. Porque quem conta, sou eu, personagem único e principal deste dia só meu. Onde apenas eu sei o que sinto, e apenas eu quero saber. As luzes brancas dessa sala ajudam a ver melhor, mas a Malu está lá fora, talvez amanhã ela não acorde, nem eu. Talvez meus pés toquem junto o chão, ou a Clarice venha num sonho matutino pedir para que eu levante, a esqueça, ou a ame. Nenhuma certeza, mas pouca esperança, talvez só por hoje, você pode perceber? Sei que você também teve seus problemas, a corda está em nossos pescoços, e eu a amarrei no seu?
O final da história. Sei que estás me cobrando um final para o suposto conto, tão redundante aparecendo lá no título, mas não passou de um dia santo, com disse antes, não foi um dia santo, provavelmente eu percebi os problemas de uma maneira mais enraizada, uma aventura que comprova ainda mais a que devo meu amor por Fiódor. Meu próximo lar será na casa dos mortos, infelizmente não estamos na Sibéria.
Amanhã não será mais hoje, e você não precisará lembrar daquilo que está lendo hoje.

20 de jul de 2010

Teosvaldo vira professor

Teosvaldo era cristão e morava numa fazenda perto de Corguinho, seu maior sonho era morar na cidade e freqüentar as missas todos os domingos, casar-se e ter alguns filhos, embora nunca tivesse estado com uma mulher, sabia perfeitamente o queria dela: silêncio, comida gostosa e na hora certa, roupa limpa e sexo farto.
A lavoura de seu pai não ia bem, choveu muito em janeiro e tudo foi por água abaixo, não há como ser mais literal que isso...
Resolveu partir em busca de seus sonhos, pegou carona até a estrada, mais uma carona da estrada até a cidade de Corguinho. Chegando à cidade, ainda meio perdido, foi até um posto de gasolina se aproximou do frentista, baixinho e barrigudo que trabalhava ali desde a abertura do posto, perguntou-lhe sobre algum lugar para passar a noite, que fosse barato em que ele pudesse comer alguma coisa. Rubinho, o frentista, indicou-lhe a pousada do Seu Juvenal, ficava há duas quadras dali.
Passos rápidos levaram-no até a pousada, cansado e com fome pediu um quarto e o próprio Juvenal o levou até lá.
Seu Juvenal era viúvo, surdo e mudo, se comunicava com poucas pessoas já que na pequena cidade ninguém sabia linguagem de sinais; muitos comentavam que Juvenal tinha um jeito estranho, atípico para homens com sua idade, mas sua rotina desviava as atenções, homem sério e trabalhador, não tinha dívidas e ainda suspeitavam que ele fosse rico, que tinha fazendas de gado e plantações de algodão, especulações naturais de cidade pequena.
A noite quente passou rapidamente e a manhã trazendo a fumaça dos canaviais anunciava mais um dia de labuta. Teosvaldo rezou seu terço, pensou na mãezinha velha e resolveu partir para luta, arrumar trabalho, conhecer a igreja e arrumar uma esposa.
Magro, moreninho, cabelos bem lisinhos, olhos grandes e mãos calejadas, esse era o rapaz da fazenda que almejava objetivos simples, e que agora tinha algumas dúvidas e quase nenhum dinheiro.
Seu Juvenal acordava às seis da manhã todos os dias, andava pelo quintal da pousada, ia à padaria e voltava para fazer o café. Quando chegou da rua encontrou o rapaz pensativo na porta dos fundos da pousada, chucro como lhe reservava o direito, encostado na porta esperou o bom dia do velho. Demorou até que Teosvaldo descobrisse que o velho era surdo e mudo, mas com poucos gestos Juvenal apontou para o quintal cheio de mato, ofereceu uma enxada ao rapaz e mostrou uma nota de vinte reais.
A manhã se desfez sob o sol escaldante do meio dia, o couro do rapaz fritava, o trabalho quase pronto e a barriga roncando eram sinais que a hora do almoço estava chegando.
Comeu seu arroz com feijão, mandioca com carne e tomou uma limonada, palitava os dentes quando o velho lhe oferecendo um cigarro o chamava para fora da pousada.
Silêncio eterno, fumaça subindo e olhares confusos.
A tarde passou, debaixo de uma mangueira Teosvaldo pensava na vida e sonhava com as delícias dela.
Quando a lua apareceu o velho foi chamar o “carpineiro”, o suor daquele homem jovem despertou o instinto mais guardado daquele ex-marinheiro. Juvenal fora da marinha na juventude e sofreu um grave acidente voltando de uma viagem, assim ficara surdo e mudo consequentemente, há quem diga que em dias de festa ele fala algumas asneiras. Parados no balcão Juvenal escreveu em um papel:
“Aqui não vai mais ter dinheiro, não tem mais mato pra carpi, então se quiser vai ter que durmi comigo”
A aflição do momento foi avassaladora, Teosvaldo pegou suas coisinhas e partiu aceleradamente.
A noite foi longa na beirada da estrada, não passara viva alma. A porta aberta e o silêncio acolhedor deram um empurrão na decisão do abandonado. Quando amanheceu, o corpo dolorido estava coberto por um lençol cheirando naftalina, a cabeça doía e sabia que tinha tomado a decisão certa. Agora tinha uma casa.
Sem pudor o velho mimava o rapaz da fazenda, comprava roupa nova toda semana e deixava que ele bebesse quantos copos de leite quisesse.
Mas o fim estava próximo, o frentista, ele mesmo o baixinho barrigudo, não se conformava, planejou dar fim a toda aquela festa. Iria colocar fogo na pousada.
Enfim, pra encurtar e muito a história, Rubinho tascou fogo na pousada, apenas o cachorrinho do Seu Juvenal não conseguiu se salvar. Teosvaldo ficou muito preocupado com a situação futura, já acostumado à mordomia, teria que voltar lá pra fazenda.
O destino mudaria totalmente, Juvenal pegou seu carro, e juntos foram para a capital, o velho realmente tinha uma boa reserva de dinheiro. Pagou um curso de libras pra Teosvaldo, que agora não queria mais saber de igreja e só queria estudar na faculdade. Não tinham mais problemas de comunicação.
Formado em matemática, resolveu fazer letras, dava aulas de libras e vivia com seu velho num apartamento de primeira.
O único problema é que o guarda roupa de Teosvaldo era coordenado pelo Seu Juvenal, era camisa laranja com tênis verde, calça marrom com sapato branco, enfim um desastre, tudo para manter a aparência de Teosvaldo o mais distante possível de um cara bem apessoado e aproximá-la um pouco mais àquela que antes fora seu sonho dourado, “freqüentador assíduo da igreja e pai de prole remelenta”. Seus alunos sempre desconfiados da sua sexualidade fizeram uma pesquisa e chegaram a este relato.

23 de jun de 2010

Marina decide morrer e ...

Para definir a Marina eu usaria duas palavras, uma delas caracterizaria sua planície e outra respectivamente seu ímpeto: impassível e apaixonada. Logo você vai dizer que tais características, sendo a princípio paradoxais, não se encaixariam muito bem num único ser, mas as improbabilidades contrastavam bem com seu rostinho corado.
Numa das noites ociosas que ficávamos frente ao computador ela me garantiu que poria fim à vida, que nenhuma das razões impostas para viver servia bem aos seus dias atuais. Sem dar muita atenção prosseguimos uma conversa inanimada que ganhou vida quando ela se lembrou do filme que assistiu uns dias antes, Veronika decide morrer, ela ria sem parar, me preocupando até.
_ Fala pra mim, quem quer morrer morre não é?
_ Isso normalmente é ceninha. Respondo quase como reflexo.
O silêncio chegou e nos resignou às incógnitas.
Logo falei pra ela parar de ler Dostoievski e beber ao mesmo tempo. Ela riu ironicamente.
Numa pesquisa rápida ela encontrou uma fórmula que parecia infalível, dez não sei o que "zinas", com dez "monas" e algumas outras droguinhas. Seus olhinhos azuis brilharam e ela ainda acrescentou:
_ Se bater tudo com vodka e suco de laranja desce mais rápido! Escrevo uma carta bonita, tranco bem a porta, bebo rápido e está feito.
Se ela quisesse realmente não alardearia não é? Pensei ligeiramente.
Disse pra Marina ir dormir e parar de pensar nessas bobagens, porque ela já dava muito trabalho viva, e morta continuaria. Fechando a porta com uma expressão lívida ela me disse obrigada, ainda deu pra ouvir sua respiração atrás da porta, pensei em voltar, mas decidi ir para casa.
Dias depois vi Marina dentro de um ônibus, acho que ela também me viu, mas fingiu não ver. Pensei em ligar pra ela mais tarde e acabei me esquecendo.
Uma semana depois de ter visto Marina no ônibus, andava eu tranquilamente cantarolando Pixies, quando meu celular tocou e uma voz séria pedia a confirmação de meu nome, eu sempre digo outro quando me ligam cobrando, mas nesse dia algo soou mais importante. Era de uma funerária, Marina havia feito um contrato de adesão aos serviços e agora solicitavam minha presença, eu era referência.
Foi tudo muito rápido, o corpo frio jogado arrumadamente no sofá, vestindo um conjunto azul, um envelope ao lado do corpo, meu coração disparado e minha mente extremamente confusa. Ilação imediata: suicídio, indubitavelmente.
Uma vizinha ouviu o cachorro de Marina chorando muito pro lado de dentro da casa, algo que não era comum, como não tinha o telefone dela, chamou várias vezes pelo portão, até decidir ligar para polícia.
Tudo muito bem feito, a cozinha bem arrumada, o saco de lixo bem fechado, a garrafa de vodka na geladeira, as cartelas de remédios criteriosamente ordenadas sobre a mesa de jantar.
Consegui imaginar as cenas, dela batendo os comprimidos no liquidificador, embora tivesse muita curiosidade de saber onde os conseguira, depois lavando a louça, com um pouco de medo, mas decidida, escolhendo uma roupa adequada, colocando uma música lenta e respirando seus ideais existencialistas. Senti certo orgulho dela, mesmo sendo espiritualizada e sabendo que sua alma sofreria muito por esta decisão egoísta.
Na carta ela fazia referência ao amor pela família distante, não declarava ódio e nem revoltas explicitadas e uma observação no fim da página: Duvidou? Quando se decide tem que se fazer.
Ela já havia deixado pago o serviço funerário e o aluguel do mês inteiro.

2 de jun de 2010

Ela não aprendeu "ingrês"

Rita andava inconformada com sua situação. Trabalhava na casa de madame Léonie, que tinha na atividade meretrícia seu passado, presente e questionável futuro.A moça tinha recém virado mulher, comprara sapatos de salto vermelhos, batom brilhante e lingerie sedutora. Eram peças indispensáveis para o trabalho que exerceria nos próximos incontáveis, porém fugazes, anos.Quando numa noite quente, o suor que escorria entre seus seios cheirava lascívia, ela deteve-se a uma antiga ideia, sobre aquele velho quase decrepto maquinava avidamente seu plano de carreira: Ir para a "Ingraterra".Aos doze anos, numa visita ao médico, Rita conhecera Petter, um caucasiano de língua enrolada, que acabara de chegar ao Brasil casado com uma mulata que prestava serviços sexuais em seu país; o homem era inglês, fala pausada, quase incompreensível para a menina pobre que mal aprendera escrever os seus dados pessoais. Naquele dia, percebendo a postura diferenciada do médico, sentiu um desejo aniquilador de entregar a carne.
Sobre à maca, o exame executado com duvidosa minúcia, excitara-a de maneira ainda nova, com arrepios inocentes, com subversiva inexperiência.Daquele dia em diante, seus dias seriam dedicados a ganhar dinheiro e conquistar o exterior, casar-se com um velho respeitável e retornar ao país com título honroso, esposa de gringo.O inglês seria sua língua, vermelho sua cor, mercedes o seu carro e de ouro seus brincos de argola.Onde aprenderia tal idioma? Antes de tudo ganhar o dinheiro da passagem. Foi parar instintivamente nas mãos da prostituição, nada mais seria inocente, celestial, doce.Vários clientes, cama sempre quente e úmida. Comida requentada, feijão aguado, arroz duro, almoço e jantar, quando muito jantar.Assistia aos filmes americanos, séria frente à TV acreditava que tudo que via era "Ingraterra".Juntou em alguns anos a quantia suficiente, arrumou suas malas, penteou o longo cabelo pintado de loiro e foi à luta.No aeroporto, a emoção transcendia a razão, embarcaria para a realização de seu sonho.
No balanço das nuvens, sabia exatamente o que faria na chegada. Instalar-se num lugar qualquer, conhecer alguém que lhe utilizasse a carne, e com um tempo, curto espaço de tempo, encontraria seu par.Os primeiros passos em solo extrangeiro foram como passos dados sobre nuvens. Só ela sabia o quão difícil fora chegar ali. Anos tortuosos, apenas coloridos por um desejo maior que a própria dor. Léonie foi a responsável pelos documentos, fotos, e dicionários, elementos que segramente na concepção da menina eram os únicos quesitos necessários para sua viagem. O custo dessa ajuda foi alto, além dos clientes rotineiros, homens fedendo à graxa e adúlteros violentos, atendia às necessidades secretas de Léonie. Nas noites de sábado, entrava no quarto da madame ao entardecer, tomavam vinho, trocavam palavras soltas, deitavam-se e lentamente entregavam-se aos indubitáveis prazeres que somente uma mulher poderia dar a outra. Embora não contente inicialmente, Rita fora se acostumando ao dúbio temperamento de sua patroa, a aos poucos soltava seus gemidos guardados, o gozo que antes fingido, ali era molhado, concomitante ao falso remorso, feminino sob os lençóis de algodão floridos. Era necessário manter a rotina das horas de pecado, o futuro dependia da manifestação antes inimaginável de seus instintos naturais.Aprendeu mais palavras, algumas frases, associava à sua língua materna as pequenas partículas de léxico adquiridas.Chegou ao tão aguardado e provável paradisíaco destino.Ao chegar na imigração, tirou da bolsa o passaporte, não queria abrir a boca. Rezou mentalmente uma oração ensinada por sua mãe, contemplou o céu acinzentado através dos vidros, respirou profundamente como animal acuado, não entregaria facilmente suas armas, nem deixaria um lágrima manchar seus olhos de preto.
Todos sabem que em países como a Inglaterra, onde tudo simula superioridade, a segregação é presente e atuante. Para aquela moça de aparência forçadamente elegante não poderia ser diferente. Ao entregar os documentos, olhar fugitivo, amedrontamento explícito e mãos suadas.Nada do que ouvira fora assimilado. Alguns minutos depois estaria numa sala fria, confusa, faminta, Rita segurava a emoção do desespero e conservava a esperança. Uma voz apressada lhe cortava os ouvidos. Nada era nítido.As palavras que treinara para usar ali, não sairam do fundo da memória.
As relações rizomáticas de Rita, ali nada mais eram do que uma lembrança distante dentro de um novo mundo repleto de sinais, para ela enigmáticos. Os homens e mulheres que acariciavam-na, agora eram imagens distantes diante do terror que era sua total alienação perante aquele cenário._ "Me solta daqui, seu moço, eu falo ingrês".Só via rostos sem expressão e nenhuma resposta. Subitamente quatro homens vieram em sua direção, adentrando abruptamente naquela sala fria. Um objeto não identificado feriu seu corpo, a dor alastrava-se rapidamente. Entorpecimento da alma... Sangue sujo, estrangeiro, pobre, pintava o chão da "Ingraterra".Não satisfeitos, aqueles homens arrancaram-lhe a roupa, investigaram-lhe os orifícios, corromperam aquilo que ainda não tivera sido corrompido, seus sonhos.Não sabia mais se em vida ou morte , enxergava uma placa ao longe : " Welcome to England"... O que seria aquilo senão um grande paradoxo?Com a cabeça doendo e ainda tonta, abriria os olhos sobre a hirta barba de seu médico favorito. Ainda faltavam muitas aulas de "ingrês", pensava ela, palavrinhas como "me deixem ficar no seu país", seriam muito úteis na sua grande viagem. E como consta no naturalismo pintado no Cortiço, para evoluir o ser precisa sobressair-se às espécies mais fracas, mas Rita por enquanto, naquele quarto, ainda era a mais fraca.

7 de abr de 2010

Conto....

Metáfora da minha descoberta

Não contei para ninguém o que aconteceu na madrugada passada. Acordei com um barulho de chuva caindo sobre o telhado, meio desorientado pelo sono, levantei da cama com o cobertor enrolado no corpo, a cama ficou gelada.
Chegando perto da janela vi que não chovia, fiquei constrangido pela sensação de medo que me dominava e acabei resolvendo investigar melhor o barulho, fui até a sala.
Sentado no sofá um senhor de cabelos longos, fumava um charuto, e mudava os canais de minha TV com tamanha naturalidade que recolhi o temor inicial e dei lugar a uma hostil curiosidade.
_ O que faz aqui?
_ Quem? Eu?
Resignado a imponente voz de meu desconhecido interlocutor, comecei a viajar em pensamentos atordoantes e percebi meu corpo mole esvaindo-se sobre o chão escuro de madeira da sala de minha velha casa.
_ Sim você, quem é você? O que quer? Leve tudo, pode levar tudo, mas vá agora embora!
O meu discurso foi interrompido suavemente com a aproximação do velho, sentou-se ao meu lado no sofá de dois lugares, colocou a mão sobre meu ombro, inspirou toda aquela fumaça no meu rosto e sorriu um sorriso amarelo e mordaz.
_ Venha comigo, vamos dar uma volta.
A força daquelas palavras não deixavam qualquer outra reação surgir a não ser a disciplinada movimentação em direção igual a do homem que me persuadia.
No espaçoso quintal de minha casa, alguns pneus se aglomeravam ao canto e uma grama que mais parecia uma floresta inóspita escurecia ainda mais o ambiente que ali se desmanchava.
Caminhamos lentamente, o tempo arrastava-se conosco, a presença daquele desconhecido era confortável e eu sentia uma imensa vontade de acender um cigarro. Não quis voltar à sala para pegá-lo, então pedi uma tragada do charuto de meu silencioso inconvidado.
_ E a chuva? Perguntei enquanto dava uma tragada.
_ Está dentro de você.
Ouvi o Bolero de Ravel atravessar minha mente, supondo que eu estivesse tendo uma alucinação passageira, a chuva, o homem, o charuto, nada era real, mas o frio ainda era.
O céu tomou uma cor avermelhada, tal qual prenuncio de tempestade, mas não havia vento, apenas um sereno entorpecente. Abriu-se no meu quintal um buraco imenso, não podia visualizar seu fundo, o homem me empurrou para ele. Tentei resistir, lutamos como se estivéssemos fazendo Tai Chi Chuan, foi engraçado. A força dele era mental e suas palavras não enunciadas entravam em minha cabeça numa osmose conflituosa entre medo e felicidade.
Acabei entrando no buraco, ou melhor, caindo, mas acredito que foi por opção própria, na medida em que eu caia naquele poço, a chuva que eu ouvira, molhava meu corpo, já não tinha mais a minha coberta. A vida solitária que cultivei, passava pelas janelas figurativas daquele poço sem fim, eu ainda ouvia as palavras do homem, que me diziam: não acredite em mais nada, já basta o que vive agora, não há explicação para minha existência, até porque, eu existo em outros não em você, minha face é sua incógnita favorita. Não tenha medo porque a chuva cessará.
Encontrei-me na terra molhada, banhado de uma loucura inexplicável, como minha fascinação por relâmpagos e chuvas barulhentas, o que me despertou? Quem era o homem, o diabo?
Sonho ou não, descobri a verdade, já seco e aquecido sob minha coberta de lã vermelha. O homem poderia ser minha consciência que apelava para a resistência de minha vida sobre a morte, a morte dos ideais, da filosofia que abandonei em versos não terminados sobre uma mesa qualquer. O homem não era eu, a madrugada continuava e um dia lindo começaria. Levantei e a chuva caia torrencialmente lá fora, resolvi não trabalhar.

22 de mar de 2010

Esconder a dor

Cada vez mais pessoas esbarram no desejo de se auto-afirmarem perante a sociedade, neste impasse de inserção derrubam o que vir pela frente, no intuito de se mostrarem persuasivas, manterem suas idéias unânimes e não terem questionadas ou contestadas suas ideologias consagradas pelos velhos livros.
O maior problema dessa guerra de auto-afirmação e ideologias disformes é o egoísmo gerado, a falta de sensibilidade e compreensão, a hipocrisia...
Se eu não acredito em um deus (cristão ou não), se não coopero com as normas estabelecidas, se minhas verdades são diferentes da maioria, automaticamente... exclusão! Por que exclusão? - você perguntaria, mas facilmente eu responderia, a exclusão vem dos olhos de condenação, certo repúdio e as frases do tipo: “tenho muita dó de você”.
Não digo isso por sustentar que a visão cética que tenho do mundo e dos acontecimentos ditos milagrosos me livrem do sofrimento, não poderia eu imaginar que a realidade de quem pensa diferente da maioria seria tão exclusiva e preconceituosa, abominável às vezes.
A perda de uma pessoa amada, um irmão, pode deixar rastros penosos, essa perda que me acompanha não pode ser esclarecida, essa dor não tem remédio, não por agora, mas o que sinto não pode ser aberto, não tem ouvidos dispostos a ouvir lamentações, as frases são quase sempre as mesmas, “ele está num lugar melhor”, “o tempo apaga essa dor, deus ajuda a amenizar”... Mas quem pode ter certeza disso? Oras ninguém sabe onde ele está!
Livrar-se dos tormentos partirá de uma jura solitária, de abdicação da dor pública, uma honrosa participação na sociedade. Juntar os cacos espalhados e consolidar através da poesia uma brandura vinda apenas das palavras que não foram a nós diretamente endereçadas. Lendo Álvares de Azevedo na madrugada e escrevendo textos desconexos e atravessados, pois com essa linha poderia seguir dias acordada.

“Sombras do vale, noites da montanha
Que minha alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!”
Lembrança de morrer, Lira dos vinte anos. Álvares de Azevedo.

16 de mar de 2010

Diálogo da confissão implícita.

_Não entendem.
_Quem não entendem, o que não entendem, por que não entendem?
_Apenas não entendem. Preciso esmiuçar?
Uma silenciosa dúvida maquinava pelo ar.
_Realmente, sou mais um desses que não entendem.
Sorriu a primeira interlocutora, continuando a baboseira.
_ Não viu, há tempos tenho lhe dito, não sei a razão pela qual você não entende.
_ De qual maneira eu entenderia um discurso tão dilacerado?
_ Apenas ouvindo.
_ Então diga.
_ Você não entenderia...

9 de mar de 2010

Será que acordei?

Acordei de um puta pesadelo e fiquei com o medo sobre a carne.
A sensação que algo ruim iria acontecer sombreava o ambiente, o desejo de correr era detido pela realidade, um sol escaldante que batia lá fora.
Resolvi comprar algo que me ajudasse a melhorar o dia, comprei uma bolachinha metade coco metade chocolate, formato de rosquinha, fiz um café solitário pra acompanhar e decidi dar uns tragos fumacentos logo após.
Então na dissipação do medo, o derivado do pesadelo surreal, fui retornando vagarosamente ao ponto de equilíbrio, não que eu tenha perdido completamente o medo, mas a redoma do sonho é mais pesada, a realidade por si já cruel o suficiente.

26 de fev de 2010

Ninguém sabe verdadeiramente

O descaso é uma dor e uma frieira, sempre latentes
Incomoda e dói devagar nas veias e na pele da gente
Os planos ficam sozinhos e fracos, vão caindo sempre
Nenhuma alma boa diz: Que beleza, que identidade!
A solidão do talento super estimado, rói solenemente
Um engano levado a sério foi lavrado, inocentemente
As pétalas sobraram no chão e foram varridas, sente?
Talvez você não sinta, mais um que não vê realmente.

17 de fev de 2010

A hora de parar?



Vejo pela clareza não tão limpa que preciso ir
O mundo para mim tornou-se de apenas 500m
Uma ida e uma vinda, uma vez ao dia e basta
Meus sorrisos parcos, soam ferozes e indignos
Minha ignominiosa crença é como o adjetivo
Aqueles que me amam já não me suportam
Palavras débeis saem de meus lábios frios
Queiram entender minha dor, ou não por fim.
Não crer na fé não é abdicar Deus na essência
Temo ter que trancar mais portas, mais umas
Receio não saber mais os verbos, estagnar
Não faço poesia há tempos, será que posso voltar?

13 de fev de 2010

Enquanto o sonho não vem


A chuva caindo no chão faz um delicioso barulho, e meu corpo jogado naquele colchão, buscando sono só pensava em como descrever aquele momento.
O colchão não estava no quarto, estava num cômodo que não tem nenhuma classificação, apenas se faz agradável pela pouca luminosidade talvez. A chuva lá fora continuava e tornava o momento da passagem do mundo real pro imaginário um pouco mais suave. Alias aquela casa não tem cômodos comuns, estende-se num corredor, com duas partes já inclassificáveis, um quarto grande, uma cozinha maior ainda, uma suposta sala (cuja porta não abre), um banheiro amarelado e uma área externa impermeável e fedida. O piso é em sua maior parte vermelho, descascando em três falsos cômodos, a cozinha e o resto de uma área que ainda não mencionei tinham o piso marrom claro, feio, mas que com uma boa lavada se tornava convidativo, sempre gostei de deitar no chão, alguns dizem que absorve as energias negativas. Anexos à cozinha, estão partes que indubitavelmente não faziam sentido, uma lavanderia que era separada por uma paredinha e um quarto pra bagunça, quente com as primeiras camadas de Dante.
A extensão dessa casa levava meus pensamentos enquanto ali naquele cômodo de paredes ocupadas por uma decoração caseira ornava com teias de aranha persistentes e minha alma.
Uma vida que passa como filme pela mente, trazendo sorrisos e lágrimas, o tempo naquele colchão desfazia minha fachada impertérrita, ao lado de mim um corpo barulhento dormia tão profundamente incapaz de ouvir minhas lamentações impertinentes.
Sou eu assim agora e ontem, confusa, antes do sono e sem saber o momento exato que ele chega somos todos nós impolutos, e que caia a água lá fora, fazendo piscina no quintal imundo.

8 de fev de 2010

Diariamente uma despedida


Revelo-me instantaneamente em poucas linhas, versos curtos, rápidos. Não tente me ter desvendada em descrições minuciosas em detalhamento de sentimentos ou coisa assim, estou sempre em despedida. Se quiseres muito de mim terá apenas duas coisas: palavras e tédio.

4 de fev de 2010

Um sem fim assim




Assumiremos nossa derrota, desde que a dualidade permita


Os frios e os calores que conseguem mais do que sensações


Fios de medo que atravessam todas as ruas consternando


Uma nação se reflete num só rosto, quando queimado, só.


Minhas letras não servem de melodia para os dramas aqui


Os sonhos que ficam nas calçadas, molham e secam sem fim


Andaremos na busca de assumir verdades, jamais as teremos.


20 de jan de 2010

Rafael, saudade eterna



Não tenho palavras para descrever a dor de perder um irmão.


O Rafael tinha uma força inigualável, sofreu sem culpar ninguém, sorriu dividindo com todos seu imenso amor.


Uma pessoa pura, nunca tinha beijado na boca...


Um anjo que até no nome carregava uma história. A saudade que fica não pode ser medida, mas o amor e as lições que ele deixou sim. Sorrir sempre, aceitar as coisas que a vida dá, e amar aqueles que nos amam.


Hoje eu choro, sofro e tenho até raiva desse destino, mas eu sei que o tempo vai apasiguar a dor e a lição de vida que o Rafa deixou prevalecerá acima de tudo.


Saudade eterna.

9 de jan de 2010

"A gente mal nasce e começa a morrer..."
A maioria dos dias que correm pro meu presente, estão tomados de uma grande desilusão. Esse espaço às vezes realmente me serve de desabafo e agora o faço, realmente se fosse escolher um sentimento para ter seria fé.
Minha família anda aflita, não existem respostas diretas e nem perspectivas, gostaria de acordar desse pesadelo, que cada dia mais vai levand meu irmão embora numa cama fria de cti.
Queria acreditar em Deus, mas assim, não, infelizmente não dá.