13 de ago de 2010

Suposto conto de um dia santo




Quando acordei senti meus olhos pesados. Foi necessário levantar bruscamente por conta do horário, sempre vinte minutos atrasada.
Logo que o pé alcançou o chão, desastre. Não é inerente à personalidade cética da minha pessoa uma conduta supersticiosa, mas foi o pé esquerdo!
Quando o frio alcançou meu dedão já era tarde, o que minha consciência na efervescência duma manhã de sexta feira poderia calcular que retirasse o peso instantâneo daquele relapso?
Simplesmente Clarice, acho que este nome me persegue, vou ao banheiro com ela, as tardes passam-se todas em função dela. São planos, são teses, são ideias repetidas, originas apenas para uma pessoa, que não é deste mundo, eu.
Essa subjetividade que carregou a manhã não é proposital, não finjo os lapsos de memória e nem a loucura lancinante que parece aflorar a cada voz que soa pelo telefone.
Uma acusação grave foi feita a mim nesta manhã, uma pessoa que lesa outra... Não tenho o costume de apropriar os direitos alheios e conservar uma falsa conduta, pelo menos é isso que penso. Então a lembrança do pé errado tocando o chão da depressão assoladora dos meus dias deste ano volta abruptamente e tento fugir desesperada pela porta imaginária dessa vida alternativa. Eu posso escolher, sempre escolho errado.
A Malu chora silenciosamente e em seus olhos a lágrima cristalizou-se em desesperança, o aval foi cortante e meu pseudo-espírito quase saltou da minha garganta: pouca esperança.
_ São só cinco anos doutor, ela é muito jovem amável e obediente.
_ ... É.
E assim vai a tarde, precisa mencionar que é sexta feira 13? Acho que não, se ao menos neste momento eu estivesse agarrada ao meu ideológico idílio da concepção científica dessa merda de vida. Merda de vida! Sim, talvez, não, pra você talvez não. Pra mim talvez e sim.
O que encerra a noite é a solidão de uma casa meio vazia, comigo dentro e o livro folheado sobre o sofá, da Clarice é claro, e um dos mais subjetivos de sua carreira, ainda não li, mais sei que faltam personagens, e eu por consequência serei para ela um deles. Queria estar deitada ao lado do amor platônico, mas hoje é sexta feira 13.
Perguntaram-me hoje se eu acredito em deus. Foi a primeira vez que escuto tão incisivamente tal pergunta, que veio através de um prefácio: olha não sei se deveria perguntar, mas achei intrigante conhecer alguém assim. Palavras implícitas num olhar dicotômico, piedade e repreensão. Hoje realmente não foi meu dia, nem um dia santo. Mas algo foi produzido por ele, um colapso matalinguístico sufocou meu silêncio e me impeliu para a tão afastada dor da falta que você faz.
Isso é um conto. Porque quem conta, sou eu, personagem único e principal deste dia só meu. Onde apenas eu sei o que sinto, e apenas eu quero saber. As luzes brancas dessa sala ajudam a ver melhor, mas a Malu está lá fora, talvez amanhã ela não acorde, nem eu. Talvez meus pés toquem junto o chão, ou a Clarice venha num sonho matutino pedir para que eu levante, a esqueça, ou a ame. Nenhuma certeza, mas pouca esperança, talvez só por hoje, você pode perceber? Sei que você também teve seus problemas, a corda está em nossos pescoços, e eu a amarrei no seu?
O final da história. Sei que estás me cobrando um final para o suposto conto, tão redundante aparecendo lá no título, mas não passou de um dia santo, com disse antes, não foi um dia santo, provavelmente eu percebi os problemas de uma maneira mais enraizada, uma aventura que comprova ainda mais a que devo meu amor por Fiódor. Meu próximo lar será na casa dos mortos, infelizmente não estamos na Sibéria.
Amanhã não será mais hoje, e você não precisará lembrar daquilo que está lendo hoje.

3 comentários:

  1. Ai, ai, Cris!
    A gente nem para pra conversar mais, né?!
    Adorei o texto, bem a sua cara.
    Mas afinal, o que houve com a Malu? =(

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  2. Suposto comentário de uma leitora que gostou muito do que leu agora... mas, quem sabe, daqui a pouco se esqueça disso e venha a gostar mais ainda!

    E que foto lindíssima! Você devia assiná-la. E me emprestá-la para eu repostá-la no meu blog - empresta, Cristiane?

    Beijos

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  3. Você autorizou o uso desta foto à Anga, Cristiane, mas através de um comentário feito numa postagem minha. Então tratei de vir aqui conhecer o seu blog e saber que foto era essa.

    A foto é excelente mesmo. E tem mais: como você mandou dois comentários bem parecidos, ambos com a autorização para o uso da foto, me sinto no direito de também usar uma outra foto sua... rsrs

    Nossa, tive de andar à beça para trás até achar outra imagem, uma que presumo não seja sua: a da cabeça explodindo. Mas é bem sugestiva, sobretudo pra mim que convivo com freqüentes dores de cabeça. A busca da imagem rendeu frutos inesperados: ótimos textos seus e, de quebra, um trecho de Álvares de Azevedo, poeta do qual não lia nada há anos.

    Muito bom o seu blog!

    Bjs

    P.S.: Belíssima foto, esta do rodapé da página! O homem lembra, pelos cabelos e pela pose, o Rodolfo Valentino. É?

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