31 de mar de 2014

Ao amor

Casa nova, vida indo, estamos velhos
Sagazes olhos azuis guiam minha vida
Os anos levaram os medos vermelhos
Aonde o passo leva, diferentes metas
Afastando, dia a dia, a dor da partida
Carregamos juntos nossos pretéritos
Construindo no agora estradas retas
Somos um só, no amor e na utopia...




25 de mar de 2014

Eeeeee São Paulo!

E no meio de tanta gente somos nada, somos tudo, somos a dor do outro e dor nenhuma.
Roupas amassadas, olhares frios, alianças reparadas, pessoas que têm alguém as esperando em algum lugar naquela imensidão tão cinza.
Quem são os paulistanos? Quem somos nós enquanto lá estamos?
Olho para tudo e só vejo dúvidas. Para que tanto trabalho, se o que sobra é tanto mau-humor?
Eles estão no domingo, na madrugada, na tarde preguiçosa, são tantos e me confundem. Como conseguem, por que conseguem?
Várias histórias se criam em minha mente, tão atordoada, tão demente!

9 de mar de 2014

Conto dos tomates, um vinho e a bicicleta.

O que eu escutei foi "se cuida". quem me conhece sabe que eu abomino essa frase. meus olhos estavam ardendo e por uma triste coincidência parecia choro. 
A crueza dos restos humanos são como as pedras duras chutadas, não as de Drummond, ocasionalmente encontradas no caminho, mas pedras que são inesquecíveis pelo mal sentido. 
E entre pontos e vírgulas que vou colocando variando da norma, vou contar uma história rápida e sem relevância para você. 
Num mundo digital em que a epidemia do narcisismo impera, encontrar um sorriso verdadeiro que acolha a alma é uma pérola negra. não há Eros que resista a tamanha apatia aos sentimentos mais puros, a carência aumenta e os defeitos mais repugnantes são maquiados para o deleite do corpo.
Fui ao mercado comprar uns tomates, entre um corredor e outro, algumas garrafas coloridas e uma roupa chamativa me fizeram diminuir os passos. Uma olhada mais atenta e uma criação cinematográfica na cabeça fizeram a coragem emergir e tornar o embate fático mais fácil... "oi, alguma sugestão?", e alguns batimentos cardíacos mais exaltados esperando uma resposta, tardia, mas positiva, " os tintos combinam com seus tomates".
Dali para o caixa, um vinho caro, um pretexto infantil e enfim as portas silenciosas do mercado.
"te acompanho?" . "pra onde?". "pra casa". suspiros e a dúvida. saudade de um abraço quente e lá vamos nós de novo.
Ao seguir carro a carro pelas ruas molhadas da cidade, tive várias chances de mudar de ideia, não recorrer àquela desesperada tentativa de uma noite mais variada. A garagem se abre, os carros buscam espaços na garagem apertada. todas os medos e perigos da vida moderna dissipados num perfume que seguia aquela pessoa ou a pessoa o seguia e me enebriava. 
Contamos poucas coisas sobre ser o que éramos, sobre gostar de coisas das quais todos gostavam, frivolidades amenizadoras e desejos mais iminentes... chegando à cozinha, a garrafa e sua serventia. bebemos, ouvimos o som da rádio, sem intervalos e com músicas dos anos oitenta. 
O telefone toca, ele não atende, eu não finjo estar alheio, continuo meu jogo capturador.
As taças vazias, por fim o beijo. Insonso e molhadinho, uma mão que não ia e nem vinha. decisões sem palavras e o que segue é tão clichê que parece filme da madrugada. Nada de mais e nem de menos. experiência nova e um veneno novo nos implícitos tormentos. "sabe quem sou?". "não o nome". "não lembra?". leve coceira na cabeça e certa curiosidade deprimente. "na realidade não sei do que está falando".
Se eu pudesse descrever o que se seguiu... não seria diferente de uma novela mexicana. Primeira vez que abro o armário, a porta ainda aberta e o corpo com dores novas, uma sensação meio doce e satisfatória, mas um medo, do futuro que não seria, batendo à porta. "seus olhos já foram mais brilhantes"...
Apaixonei-me pelo sarcasmo dele, agora revelando uma expressão de sabedoria e blindagem indubitáveis. 
"me lembrei sim, e peço desculpa". "desculpas aceitas".
Vestimos nossas roupas e todos os dias àquela hora eu pensava nele.
Passadas algumas semanas, queria tanto tudo de novo. não contente com as ligações da gata linda da academia e das investidas da colega de trabalho, vesti meu preto e fui à caça.
Dez anos antes, perto da faculdade, um menino franzino atravessava a rua com sua nova bicicleta. passei por cima, não matei. Desci e vi que nada grave acontecera e, sem muitas palavras, despedi-me do problema. Vários telefonemas me alertaram da minha responsabilidade e eu na mais resistente frieza, me achava dono da razão, se não, a própria razão.
Voltando ao mercado, tentativa adolescente de voltar ao local do crime, encontro o vinho tinto separado, olho para o lado e o quadro está pintado.
Fomos ao momento intermediário do encontro anterior, dessa vez mais excitados, ou eu o estava.
Na saída, sem muita limpeza, nem fome nem sede, o baque: "ainda quero minha bicicleta";
Não teve jeito, da minha boca saíram palavras que pude escutar como se fossem de outros, mantive minha razão, perdi a chance de mais novos deleites. e ele deve ter se cuidado. Hoje casado, meus filhos não andam de bicicleta.