15 de set de 2014

Um dia desses do passado

Entramos na loja quase no final do expediente, as luzes estavam parcialmente acesas, mas a porta não havia sido abaixada ainda.
Uma moça loira no fundo da loja nos olha com desprezo, fácil imaginar por quê; não somos uma visita pertinente já que provavelmente havia alguém a sua espera e nada poderia atrapalhá-la.
O que queríamos afinal?
A grande placa pendurada sobre nossas cabeças sinalizava uma grande promoção de máquinas do tempo. Meu dinheiro daria para levar pelo menos uma.
A máquina, ainda não muito popular, era como um Iphone lá do início do século, lojas reais, não muito comuns ultimamente, vendem essas coisas com a promessa de uma felicidade instantânea.
Pensei bem em como abordar a moça birrenta e sua maquiagem cinza ainda dava um tom a a mais de medo de prosseguir.
Chegamos até ela, pedimos a máquina, ela relutante, querendo sair naquele instante nos disse: "a loja está fechando, meu robô está lá fora me esperando, os caminhos subterrâneos a essa hora estão um caos, portanto voltem amanhã!"
Não satisfazendo nosso desejo insano, a raiva apoderou-se de nossas mentes. Matei a moça, dois raios no meio de sua cabeça.
A loja toda, seus monitores flutuantes e seus vendedores fantasmas sorriam. Entramos na máquina, voltamos para duas horas mais cedo. Entramos na loja e compramos a máquina.
Agora olho estupefata para essa casa, esse computador, nossos rostos em retratos de papel, minha avó numa caricatura cruel. Facebbok, Twitter, Instagram... coisas tão engraçadas!
Pegamos uma cerveja, feita com água, nossa! Tomamos e ouvimos Pink Floyd.

8 de jul de 2014

Sobre um dia qualquer

Há algum tempo não escrevo, mas penso tanto... queria trazer de volta, imprimir e traduzir tantos pensamentos. Bons e ruins, complexos e simples. Eternos e doces paradoxos.
Vida que segue na luta serena, pequeninos segredos e luzes acesas.
Um dia cinza, como as minhas paredes. Vejo beleza nisso.

7 de jun de 2014

A madrugada do espírito, uma linha reta - UM ALVO!

A filosofia me ajuda a ver, que no fundo dos olhos mais sinceros, há mentiras que podem ser ditas...
Não há perdão para os pecados mais graves, assim como não há para os pequenos deslizes, escondo-te, palavra turva, com uma zeugma intencional!
Há o que desejamos sentir, intimamente negado, mas precisamos ocultar sob palavras mais brandas, sob insípidas alegorias.
As interpretações vêm de contextos pessoais, mas existem formas de se dizer sem ser explícito? Ledo engano.
Que o conjunto das verdades mais insanas seja um livro que eu escreva, que as mentiras mais dolorosas sejam parte apenas dos pesadelos.
"Que sejamos covardes em relação aos nossos atos! Que não os abandonemos uma vez consumados! - O remorso é indecente." Nas palavras de Nietzsche, guardadas as proporções, procuro a inspiração e a essência. Sem remorsos, vida limpa e não polêmica, dançar os desejos e saborear as pequenas doçuras...

28 de abr de 2014

Um passeio a mais

              Eles saiam para passear todos os dias, havia 20 anos. Todas as noites conversavam sobre seus passeios, que duravam no mínimo meia hora, mas quase nunca falharam. Caminhadas pelo bairro, sorvetes na rua de cima, cinema, casa de amigos, enfim, todos os dias um passeio.
            Quando chovia, ele levava um guarda-chuva amarelo, que nos dois primeiros anos foi muito útil, as cores dos seguintes talvez não se lembrem mais.
            Num desses passeios pegaram da rua seu primeiro gatinho, um pretinho molhado, estava jogado num buraco, ela não resistiu e o criaram até seu sumiço, uns quatro anos depois.
Mais tarde um cachorrinho sem rabo...
             A amizade crescia em cada conversa, em cada lágrima corrida ao contar como fora seus dias. O amor floria, a alma branda às vezes enegrecida, o perdão, as brigas. Os dias tinham de tudo, faltava muito, mas nunca faltava a companhia.
           Certa vez, por ocasião de uma doença grave, ficaram meses sem fazer seus passeios, passeavam pelos livros em longas conversas no hospital.
Mas tudo mudou.
           De cada passeio que fizeram ele trouxera uma paixão diferente para a cama. A atendente do mercado, a professora de francês, a empregada da vizinha, a irmã de uma conhecida, até mesmo umas paixões diferentes e pra ele incompreendidas, uns rapazes que jogavam bola sem camisa.
Essas paixões só esquentavam a cama, nunca viraram palavras. A mulher se sentia muito amada, embora às vezes fosse um pouco desprezada.
           Aquilo alimentou a vida e a vontade de sair para vivê-la, no seu âmago o homem vivia um filme que o mantinha apaixonado, ela, usufruía da indubitável energia que dele desprendera.
Ninguém poderia explicar o porquê, mas numa tarde cinza, ele não quis sair para o passeio. Não deu satisfações à moça e foi se olhar no espelho.
         Como chorou a mulher já marcada pelo tempo, seus cabelos, sua pele, seu tempero, já não eram os mesmos, sentia-se num conto de Clarice. Uma carta na manhã seguinte tornou a tempestade uma realidade. Como se todas as palavras trágicas dos textos dramáticos e shakespearianos tornassem-se ali mesmo a vida, a verossimilhança.
Não haveria mais passeios, um dia ele trouxe o sonho para a realidade e tornou carnal o desejo utópico e variado de uma vida inteira.

26 de abr de 2014

Pílulas de alegria

Faço de ti meu aconchego, uma hora de luz na noite vivendo à toa...
Num tom poético vivo os livros que não escrevo, penso as valsas.
São segredos, são desejos, são medos e mágoas atenuadas,
tenho isso hoje, pra mim e pro mundo, não falta mais nada!

21 de abr de 2014

No meio da tempestade

Sinto-me num enredo antigo, clichê até... não semelhante a Capitu, mas como o Casmurro que em sua narrativa para o espelho, vê apenas o que quer, aquilo que imagina, sofre por si mesmo. Embalada pela música que tem o som da morte, deliciosamente providencial, ao som de Beirut, saudando as mágoas, perdendo e ganhando medos.

Mesmo tendo nas mãos a chance de recomeçar, o coração partido e meio vivo bate vagarosamente, pede minha alma que meus pesadelos não se tornem mais realidade. Volta tempo, volta!

E quando a música acabar e já não estiver entorpecida de sua emoção, volta a cruel realidade, quem dera Machadiana, quem dera criada por minhas próprias alucinações...


Eternamente atormentada

Uma vida rasgada, nada mais. O ontem com sabor de amarga eternidade, quando acabará? Retórico, jamais acabará.
Saibas que a dor e o amor são verdadeiros e, "se morre de amor?"
São dias e luas que passarão e as respostas talvez nunca chegarão.

14 de abr de 2014

Venha e Leia-me

Vens, amiúde, com seus temperos amargos
Pensando talvez que podes fazer diferente
Ela, na natureza inquieta do seu ser ímpar
Sente-se mofina ao olhar o ser no espelho

O gosto que ficou do medo do mundo
A chuva que passou fina, sem cheiros
O látego recebido, nos eternos anseios

O que é a poesia sem pensar no TU?
Fechadas as angústias viram palavras
Hiperbólicas, arrastadas, enfeitadas...

Vens, para que o teu mais leve erro
Seja justificado no tempo, ou mais...
Para que guardemos nas palavras
Apenas, sempre,
todo desespero.

31 de mar de 2014

Ao amor

Casa nova, vida indo, estamos velhos
Sagazes olhos azuis guiam minha vida
Os anos levaram os medos vermelhos
Aonde o passo leva, diferentes metas
Afastando, dia a dia, a dor da partida
Carregamos juntos nossos pretéritos
Construindo no agora estradas retas
Somos um só, no amor e na utopia...




25 de mar de 2014

Eeeeee São Paulo!

E no meio de tanta gente somos nada, somos tudo, somos a dor do outro e dor nenhuma.
Roupas amassadas, olhares frios, alianças reparadas, pessoas que têm alguém as esperando em algum lugar naquela imensidão tão cinza.
Quem são os paulistanos? Quem somos nós enquanto lá estamos?
Olho para tudo e só vejo dúvidas. Para que tanto trabalho, se o que sobra é tanto mau-humor?
Eles estão no domingo, na madrugada, na tarde preguiçosa, são tantos e me confundem. Como conseguem, por que conseguem?
Várias histórias se criam em minha mente, tão atordoada, tão demente!

9 de mar de 2014

Conto dos tomates, um vinho e a bicicleta.

O que eu escutei foi "se cuida". quem me conhece sabe que eu abomino essa frase. meus olhos estavam ardendo e por uma triste coincidência parecia choro. 
A crueza dos restos humanos são como as pedras duras chutadas, não as de Drummond, ocasionalmente encontradas no caminho, mas pedras que são inesquecíveis pelo mal sentido. 
E entre pontos e vírgulas que vou colocando variando da norma, vou contar uma história rápida e sem relevância para você. 
Num mundo digital em que a epidemia do narcisismo impera, encontrar um sorriso verdadeiro que acolha a alma é uma pérola negra. não há Eros que resista a tamanha apatia aos sentimentos mais puros, a carência aumenta e os defeitos mais repugnantes são maquiados para o deleite do corpo.
Fui ao mercado comprar uns tomates, entre um corredor e outro, algumas garrafas coloridas e uma roupa chamativa me fizeram diminuir os passos. Uma olhada mais atenta e uma criação cinematográfica na cabeça fizeram a coragem emergir e tornar o embate fático mais fácil... "oi, alguma sugestão?", e alguns batimentos cardíacos mais exaltados esperando uma resposta, tardia, mas positiva, " os tintos combinam com seus tomates".
Dali para o caixa, um vinho caro, um pretexto infantil e enfim as portas silenciosas do mercado.
"te acompanho?" . "pra onde?". "pra casa". suspiros e a dúvida. saudade de um abraço quente e lá vamos nós de novo.
Ao seguir carro a carro pelas ruas molhadas da cidade, tive várias chances de mudar de ideia, não recorrer àquela desesperada tentativa de uma noite mais variada. A garagem se abre, os carros buscam espaços na garagem apertada. todas os medos e perigos da vida moderna dissipados num perfume que seguia aquela pessoa ou a pessoa o seguia e me enebriava. 
Contamos poucas coisas sobre ser o que éramos, sobre gostar de coisas das quais todos gostavam, frivolidades amenizadoras e desejos mais iminentes... chegando à cozinha, a garrafa e sua serventia. bebemos, ouvimos o som da rádio, sem intervalos e com músicas dos anos oitenta. 
O telefone toca, ele não atende, eu não finjo estar alheio, continuo meu jogo capturador.
As taças vazias, por fim o beijo. Insonso e molhadinho, uma mão que não ia e nem vinha. decisões sem palavras e o que segue é tão clichê que parece filme da madrugada. Nada de mais e nem de menos. experiência nova e um veneno novo nos implícitos tormentos. "sabe quem sou?". "não o nome". "não lembra?". leve coceira na cabeça e certa curiosidade deprimente. "na realidade não sei do que está falando".
Se eu pudesse descrever o que se seguiu... não seria diferente de uma novela mexicana. Primeira vez que abro o armário, a porta ainda aberta e o corpo com dores novas, uma sensação meio doce e satisfatória, mas um medo, do futuro que não seria, batendo à porta. "seus olhos já foram mais brilhantes"...
Apaixonei-me pelo sarcasmo dele, agora revelando uma expressão de sabedoria e blindagem indubitáveis. 
"me lembrei sim, e peço desculpa". "desculpas aceitas".
Vestimos nossas roupas e todos os dias àquela hora eu pensava nele.
Passadas algumas semanas, queria tanto tudo de novo. não contente com as ligações da gata linda da academia e das investidas da colega de trabalho, vesti meu preto e fui à caça.
Dez anos antes, perto da faculdade, um menino franzino atravessava a rua com sua nova bicicleta. passei por cima, não matei. Desci e vi que nada grave acontecera e, sem muitas palavras, despedi-me do problema. Vários telefonemas me alertaram da minha responsabilidade e eu na mais resistente frieza, me achava dono da razão, se não, a própria razão.
Voltando ao mercado, tentativa adolescente de voltar ao local do crime, encontro o vinho tinto separado, olho para o lado e o quadro está pintado.
Fomos ao momento intermediário do encontro anterior, dessa vez mais excitados, ou eu o estava.
Na saída, sem muita limpeza, nem fome nem sede, o baque: "ainda quero minha bicicleta";
Não teve jeito, da minha boca saíram palavras que pude escutar como se fossem de outros, mantive minha razão, perdi a chance de mais novos deleites. e ele deve ter se cuidado. Hoje casado, meus filhos não andam de bicicleta. 

15 de fev de 2014

Restos de pessoas, coisas e amores

Quem nunca bebeu, sorveu, comeu, sentimentos e pele e partes de quem ama...
No café vai a perda ínfima da pele esquecida.
No feijão o sopro do hálito que cansado nutre,
No pão, o suor e a rotina antiga.
Nos restos dos copos d´água, nos vinhos bicados e naquela deliciosa lambida.
Somos outros tantos, outros desconhecidos, uns nem tanto.
Às vezes lembramos que somos o resto da estrela que morreu há bilhões de anos,
Em outras vezes ignoramos a essência e nos inflamos do desejo de sermos deuses.
Sou o gene antigo de um pobre abandonado, de uma dama sonhadora, de um rico abençoado.
És a sobra da saliva, és o pó da mobília, és tudo e nada...
Somos e engolimos quem amamos, damos de nós no nascimento, na cama e na morte.
Uma mistura inexplicável de sensações e impressões, de dias nublados com dor e dúvida.
A felicidade é tão capciosa que frequentemente se aproxima e nos gela, afastamo-la.
Nessa mistura
de carnes e unhas, de sopros e bactérias, somos um só, e permaneceremos aqui
Mortos e vivos, amados e esquecidos, flutuando como poeira de universo.

3 de fev de 2014

There´s no truth in it

Carthaginians used war elephants against the Romans in the Battle of Zoma in 202 B.C., as seen in this 1890 painting by Henri-Paul Motte. 
They tried to leave a message where they were, didn´t they?
Please, please, tell me what they did and why they tarried.
My soul rests under a loud noise, it claims the truth, do you see?
News come and go, they bring shame, fear, I can´t breathe now.
The days pass by, we have nothing to lose, but I´m still here.
Uncovering old memories, I have to say: my past has no glory.

22 de jan de 2014

Latente e doente

Gravura de Carlos Vergara - artista brasileiro.
Não há um único dia em que não penso por que seguir em frente.
O dia e o sol e o calor e a ignorância e o medo e a dor e a finitude...
Não é que o mundo tenha uma imagem apenas para meus olhos,
não é que o fel da melancolia tenha comprometido meus sentidos,
o que há é a maldade do homem, a ilusão em que ele está imerso.
Olhos veem, corações não sentem, ninguém entende, a alma morre.