28 de abr de 2014

Um passeio a mais

              Eles saiam para passear todos os dias, havia 20 anos. Todas as noites conversavam sobre seus passeios, que duravam no mínimo meia hora, mas quase nunca falharam. Caminhadas pelo bairro, sorvetes na rua de cima, cinema, casa de amigos, enfim, todos os dias um passeio.
            Quando chovia, ele levava um guarda-chuva amarelo, que nos dois primeiros anos foi muito útil, as cores dos seguintes talvez não se lembrem mais.
            Num desses passeios pegaram da rua seu primeiro gatinho, um pretinho molhado, estava jogado num buraco, ela não resistiu e o criaram até seu sumiço, uns quatro anos depois.
Mais tarde um cachorrinho sem rabo...
             A amizade crescia em cada conversa, em cada lágrima corrida ao contar como fora seus dias. O amor floria, a alma branda às vezes enegrecida, o perdão, as brigas. Os dias tinham de tudo, faltava muito, mas nunca faltava a companhia.
           Certa vez, por ocasião de uma doença grave, ficaram meses sem fazer seus passeios, passeavam pelos livros em longas conversas no hospital.
Mas tudo mudou.
           De cada passeio que fizeram ele trouxera uma paixão diferente para a cama. A atendente do mercado, a professora de francês, a empregada da vizinha, a irmã de uma conhecida, até mesmo umas paixões diferentes e pra ele incompreendidas, uns rapazes que jogavam bola sem camisa.
Essas paixões só esquentavam a cama, nunca viraram palavras. A mulher se sentia muito amada, embora às vezes fosse um pouco desprezada.
           Aquilo alimentou a vida e a vontade de sair para vivê-la, no seu âmago o homem vivia um filme que o mantinha apaixonado, ela, usufruía da indubitável energia que dele desprendera.
Ninguém poderia explicar o porquê, mas numa tarde cinza, ele não quis sair para o passeio. Não deu satisfações à moça e foi se olhar no espelho.
         Como chorou a mulher já marcada pelo tempo, seus cabelos, sua pele, seu tempero, já não eram os mesmos, sentia-se num conto de Clarice. Uma carta na manhã seguinte tornou a tempestade uma realidade. Como se todas as palavras trágicas dos textos dramáticos e shakespearianos tornassem-se ali mesmo a vida, a verossimilhança.
Não haveria mais passeios, um dia ele trouxe o sonho para a realidade e tornou carnal o desejo utópico e variado de uma vida inteira.

26 de abr de 2014

Pílulas de alegria

Faço de ti meu aconchego, uma hora de luz na noite vivendo à toa...
Num tom poético vivo os livros que não escrevo, penso as valsas.
São segredos, são desejos, são medos e mágoas atenuadas,
tenho isso hoje, pra mim e pro mundo, não falta mais nada!

21 de abr de 2014

No meio da tempestade

Sinto-me num enredo antigo, clichê até... não semelhante a Capitu, mas como o Casmurro que em sua narrativa para o espelho, vê apenas o que quer, aquilo que imagina, sofre por si mesmo. Embalada pela música que tem o som da morte, deliciosamente providencial, ao som de Beirut, saudando as mágoas, perdendo e ganhando medos.

Mesmo tendo nas mãos a chance de recomeçar, o coração partido e meio vivo bate vagarosamente, pede minha alma que meus pesadelos não se tornem mais realidade. Volta tempo, volta!

E quando a música acabar e já não estiver entorpecida de sua emoção, volta a cruel realidade, quem dera Machadiana, quem dera criada por minhas próprias alucinações...


Eternamente atormentada

Uma vida rasgada, nada mais. O ontem com sabor de amarga eternidade, quando acabará? Retórico, jamais acabará.
Saibas que a dor e o amor são verdadeiros e, "se morre de amor?"
São dias e luas que passarão e as respostas talvez nunca chegarão.

14 de abr de 2014

Venha e Leia-me

Vens, amiúde, com seus temperos amargos
Pensando talvez que podes fazer diferente
Ela, na natureza inquieta do seu ser ímpar
Sente-se mofina ao olhar o ser no espelho

O gosto que ficou do medo do mundo
A chuva que passou fina, sem cheiros
O látego recebido, nos eternos anseios

O que é a poesia sem pensar no TU?
Fechadas as angústias viram palavras
Hiperbólicas, arrastadas, enfeitadas...

Vens, para que o teu mais leve erro
Seja justificado no tempo, ou mais...
Para que guardemos nas palavras
Apenas, sempre,
todo desespero.