7 de abr de 2010

Conto....

Metáfora da minha descoberta

Não contei para ninguém o que aconteceu na madrugada passada. Acordei com um barulho de chuva caindo sobre o telhado, meio desorientado pelo sono, levantei da cama com o cobertor enrolado no corpo, a cama ficou gelada.
Chegando perto da janela vi que não chovia, fiquei constrangido pela sensação de medo que me dominava e acabei resolvendo investigar melhor o barulho, fui até a sala.
Sentado no sofá um senhor de cabelos longos, fumava um charuto, e mudava os canais de minha TV com tamanha naturalidade que recolhi o temor inicial e dei lugar a uma hostil curiosidade.
_ O que faz aqui?
_ Quem? Eu?
Resignado a imponente voz de meu desconhecido interlocutor, comecei a viajar em pensamentos atordoantes e percebi meu corpo mole esvaindo-se sobre o chão escuro de madeira da sala de minha velha casa.
_ Sim você, quem é você? O que quer? Leve tudo, pode levar tudo, mas vá agora embora!
O meu discurso foi interrompido suavemente com a aproximação do velho, sentou-se ao meu lado no sofá de dois lugares, colocou a mão sobre meu ombro, inspirou toda aquela fumaça no meu rosto e sorriu um sorriso amarelo e mordaz.
_ Venha comigo, vamos dar uma volta.
A força daquelas palavras não deixavam qualquer outra reação surgir a não ser a disciplinada movimentação em direção igual a do homem que me persuadia.
No espaçoso quintal de minha casa, alguns pneus se aglomeravam ao canto e uma grama que mais parecia uma floresta inóspita escurecia ainda mais o ambiente que ali se desmanchava.
Caminhamos lentamente, o tempo arrastava-se conosco, a presença daquele desconhecido era confortável e eu sentia uma imensa vontade de acender um cigarro. Não quis voltar à sala para pegá-lo, então pedi uma tragada do charuto de meu silencioso inconvidado.
_ E a chuva? Perguntei enquanto dava uma tragada.
_ Está dentro de você.
Ouvi o Bolero de Ravel atravessar minha mente, supondo que eu estivesse tendo uma alucinação passageira, a chuva, o homem, o charuto, nada era real, mas o frio ainda era.
O céu tomou uma cor avermelhada, tal qual prenuncio de tempestade, mas não havia vento, apenas um sereno entorpecente. Abriu-se no meu quintal um buraco imenso, não podia visualizar seu fundo, o homem me empurrou para ele. Tentei resistir, lutamos como se estivéssemos fazendo Tai Chi Chuan, foi engraçado. A força dele era mental e suas palavras não enunciadas entravam em minha cabeça numa osmose conflituosa entre medo e felicidade.
Acabei entrando no buraco, ou melhor, caindo, mas acredito que foi por opção própria, na medida em que eu caia naquele poço, a chuva que eu ouvira, molhava meu corpo, já não tinha mais a minha coberta. A vida solitária que cultivei, passava pelas janelas figurativas daquele poço sem fim, eu ainda ouvia as palavras do homem, que me diziam: não acredite em mais nada, já basta o que vive agora, não há explicação para minha existência, até porque, eu existo em outros não em você, minha face é sua incógnita favorita. Não tenha medo porque a chuva cessará.
Encontrei-me na terra molhada, banhado de uma loucura inexplicável, como minha fascinação por relâmpagos e chuvas barulhentas, o que me despertou? Quem era o homem, o diabo?
Sonho ou não, descobri a verdade, já seco e aquecido sob minha coberta de lã vermelha. O homem poderia ser minha consciência que apelava para a resistência de minha vida sobre a morte, a morte dos ideais, da filosofia que abandonei em versos não terminados sobre uma mesa qualquer. O homem não era eu, a madrugada continuava e um dia lindo começaria. Levantei e a chuva caia torrencialmente lá fora, resolvi não trabalhar.