27 de nov de 2013

Crônica do assassinato de um anão

          Ele olhou bem no fundo dos meus olhos, foi seu último gesto nauseante, despertando em mim um sentimento que não é tão recorrente, um misto de raiva e choque, que sairiam bem emblemáticos numa crônica russa.
            Foi nesse momento, que desafiada pelos olhos insolentes de um ser preenchido de mau caratismo, que o inesperado, ao menos pra mim, aconteceu.
            Antes, vamos a algumas reflexões importantes: dia de trabalho intenso, papéis cercando a mesa e a mente fervilhando de desejos irrealizáveis e frustrações latentes. A água ameaçava descer do céu, mais tarde até desceu. Meus pés estavam seguros num sapato levemente apertado e algumas notas de Beethoven vinham cantarolando em meus pensamentos mais distantes. As vozes se calaram imediatamente a minha expressão mais perplexa de uma atitude egoísta, a vontade de ser quem não se pode cresce num ambiente que te limita. O ser minúsculo atirou pedras, com peso triplamente maior que o seu, em minha direção, quase que gratuitamente.
          O entrave deu-se por uma metafórica luta por território, o meu há tempos procurado era mais dele que meu naquele instante, eu matei. Não consigo ser gigante, mas me ergo acima do senso comum.
         E matei, com um tiro, aquilo que me corroía, o mais interessante disso tudo é que ninguém se comoveu. Sem sangue ou sirenes, nem prisões nem leões, o meu algoz agora era a vítima, estirada sobre um piso gelado, sujo e conhecido.Quem me salvaria, a não ser a força da arma?
        Enchi meus pulmões com aquele ar carregado e aspirei toda a raiva contida, num tom de voz bem baixo, atirado junto com a bala. A bala que não era de prata nem de ferro, muito menos de hortelã. E repito, não sinto raiva. Já senti. Agora a morte dele será mais uma história esquecida junto com o cheiro de momentos que vivi sem querer viver. O gosto das coisas boas são mais duráveis, o gosto do céu cinzento é meu preferido.
         Com o cadáver removido pude seguir com meus outros dilemas, o cansaço não me desafiava mais, nem as palavras que não conheço, eu mesma me provocava, quantas mortes ainda seriam necessárias? Para saldar a dívida que tenho, terei que levar mais armas para minha labuta, terei que ser gladiadora, inquisidora e ainda mais extremista. Terei que achar uma brecha nessa justiça permissiva, para que enfim meus mortos descansem e eu não tenha mais fantasmas nas minhas horas vazias.


24 de nov de 2013

Um novo ser a cada amanhecer

         Queria a cada dia ser um novo, um novo sem perder o máximo de mim mesma. Não ter a imprudência de nadar no fogo que queima as esperanças, nem ter o medo de mergulhar profundamente em busca dos corais mais coloridos. E ser a reinvenção do melhor que há em tudo, com a força que não se acha em quase nada.
          Queria ser eu mais explicitamente, descoberta pelo espelho que há tanto se nega. 
Não ser o pobre nem o rico, a fama ou o anonimato, ser como a estrela que brilha hoje e só se vê o brilho  através do tempo imensurável. A música e o vinho que estão nas mãos dos deuses, a tempestade e a calmaria.
          Queria ser o paradoxo, que se secasse na chuva fina, ainda assim ser a simples figura denotativa.
Poderia ser se não fosse tão difícil se reconhecer, pois ainda não sei e sinto que preciso saber, ainda que as origens sejam o pó de tudo que existe, queria moldurar a mais bela das singularidades.

Cristiane Felipe.

13 de nov de 2013

Sem cronicidade na "tragicidade"

Talvez se houvesse coragem eu já teria desistido de tudo. Mas de tudo o quê? Se nem sei o que tenho e pelo que luto, ou se mesmo luto.
O que tento transmitir é real e, realmente, desejo o bem de muitos.
Mas quão surreal é a hora em que estou sozinha, perdida em meus fluxos de pensamentos egocêntricos que só enxeram a dor lancinante que sempre tomou conta de uma parte de mim. Isso é tão íntimo que nem deveria estar aqui. Pois bem, palavras que talvez não lidas sejam facilmente descartadas.
Um vazio se abre amargando um pedaço de mim e sei que passa, mas agora não passa, agora ecoa uma sirene, várias sirenes em minha mente.
Comparo à sensação não explicável de olhar para o céu estrelado, que mesmo sendo clichê é algo extraordinário. A grandiosidade dos mistérios que se distanciam a cada dia de serem elucidados, dentro do brilho de cada estrela. O ofuscante medo de saber que jamais iremos entendê-las. E os porquês que se fazem tão absurdos quando se olha a tão imensurável imensidão.
Quero o destino dos louvados, quero a discrição dos sábios, quero a luz e o poder, quero nada ser e nada ter.
E não encontro sentido algum nesses paradoxos, voo longe das minhas atribuições tentando achar uma grandeza que me caiba.
Palavras, achadas e perdidas, permeiam meus livros imaginários, que de nunca escritos tornaram-se impraticáveis. Por que tamanha prolixidade? Procrastinação e preguiça são meus outros nomes...
Sem os desabafos, "autodesabafos", minha rotina seria mais entristecida. Pois tento, ainda, achar razões de manter uma vontade ligada e partilhar com algumas pessoas o meu dia a dia.
Esqueçamos o que foi lido. Queimemos os papéis não impressos.