23 de jun de 2010

Marina decide morrer e ...

Para definir a Marina eu usaria duas palavras, uma delas caracterizaria sua planície e outra respectivamente seu ímpeto: impassível e apaixonada. Logo você vai dizer que tais características, sendo a princípio paradoxais, não se encaixariam muito bem num único ser, mas as improbabilidades contrastavam bem com seu rostinho corado.
Numa das noites ociosas que ficávamos frente ao computador ela me garantiu que poria fim à vida, que nenhuma das razões impostas para viver servia bem aos seus dias atuais. Sem dar muita atenção prosseguimos uma conversa inanimada que ganhou vida quando ela se lembrou do filme que assistiu uns dias antes, Veronika decide morrer, ela ria sem parar, me preocupando até.
_ Fala pra mim, quem quer morrer morre não é?
_ Isso normalmente é ceninha. Respondo quase como reflexo.
O silêncio chegou e nos resignou às incógnitas.
Logo falei pra ela parar de ler Dostoievski e beber ao mesmo tempo. Ela riu ironicamente.
Numa pesquisa rápida ela encontrou uma fórmula que parecia infalível, dez não sei o que "zinas", com dez "monas" e algumas outras droguinhas. Seus olhinhos azuis brilharam e ela ainda acrescentou:
_ Se bater tudo com vodka e suco de laranja desce mais rápido! Escrevo uma carta bonita, tranco bem a porta, bebo rápido e está feito.
Se ela quisesse realmente não alardearia não é? Pensei ligeiramente.
Disse pra Marina ir dormir e parar de pensar nessas bobagens, porque ela já dava muito trabalho viva, e morta continuaria. Fechando a porta com uma expressão lívida ela me disse obrigada, ainda deu pra ouvir sua respiração atrás da porta, pensei em voltar, mas decidi ir para casa.
Dias depois vi Marina dentro de um ônibus, acho que ela também me viu, mas fingiu não ver. Pensei em ligar pra ela mais tarde e acabei me esquecendo.
Uma semana depois de ter visto Marina no ônibus, andava eu tranquilamente cantarolando Pixies, quando meu celular tocou e uma voz séria pedia a confirmação de meu nome, eu sempre digo outro quando me ligam cobrando, mas nesse dia algo soou mais importante. Era de uma funerária, Marina havia feito um contrato de adesão aos serviços e agora solicitavam minha presença, eu era referência.
Foi tudo muito rápido, o corpo frio jogado arrumadamente no sofá, vestindo um conjunto azul, um envelope ao lado do corpo, meu coração disparado e minha mente extremamente confusa. Ilação imediata: suicídio, indubitavelmente.
Uma vizinha ouviu o cachorro de Marina chorando muito pro lado de dentro da casa, algo que não era comum, como não tinha o telefone dela, chamou várias vezes pelo portão, até decidir ligar para polícia.
Tudo muito bem feito, a cozinha bem arrumada, o saco de lixo bem fechado, a garrafa de vodka na geladeira, as cartelas de remédios criteriosamente ordenadas sobre a mesa de jantar.
Consegui imaginar as cenas, dela batendo os comprimidos no liquidificador, embora tivesse muita curiosidade de saber onde os conseguira, depois lavando a louça, com um pouco de medo, mas decidida, escolhendo uma roupa adequada, colocando uma música lenta e respirando seus ideais existencialistas. Senti certo orgulho dela, mesmo sendo espiritualizada e sabendo que sua alma sofreria muito por esta decisão egoísta.
Na carta ela fazia referência ao amor pela família distante, não declarava ódio e nem revoltas explicitadas e uma observação no fim da página: Duvidou? Quando se decide tem que se fazer.
Ela já havia deixado pago o serviço funerário e o aluguel do mês inteiro.

2 de jun de 2010

Ela não aprendeu "ingrês"

Rita andava inconformada com sua situação. Trabalhava na casa de madame Léonie, que tinha na atividade meretrícia seu passado, presente e questionável futuro.A moça tinha recém virado mulher, comprara sapatos de salto vermelhos, batom brilhante e lingerie sedutora. Eram peças indispensáveis para o trabalho que exerceria nos próximos incontáveis, porém fugazes, anos.Quando numa noite quente, o suor que escorria entre seus seios cheirava lascívia, ela deteve-se a uma antiga ideia, sobre aquele velho quase decrepto maquinava avidamente seu plano de carreira: Ir para a "Ingraterra".Aos doze anos, numa visita ao médico, Rita conhecera Petter, um caucasiano de língua enrolada, que acabara de chegar ao Brasil casado com uma mulata que prestava serviços sexuais em seu país; o homem era inglês, fala pausada, quase incompreensível para a menina pobre que mal aprendera escrever os seus dados pessoais. Naquele dia, percebendo a postura diferenciada do médico, sentiu um desejo aniquilador de entregar a carne.
Sobre à maca, o exame executado com duvidosa minúcia, excitara-a de maneira ainda nova, com arrepios inocentes, com subversiva inexperiência.Daquele dia em diante, seus dias seriam dedicados a ganhar dinheiro e conquistar o exterior, casar-se com um velho respeitável e retornar ao país com título honroso, esposa de gringo.O inglês seria sua língua, vermelho sua cor, mercedes o seu carro e de ouro seus brincos de argola.Onde aprenderia tal idioma? Antes de tudo ganhar o dinheiro da passagem. Foi parar instintivamente nas mãos da prostituição, nada mais seria inocente, celestial, doce.Vários clientes, cama sempre quente e úmida. Comida requentada, feijão aguado, arroz duro, almoço e jantar, quando muito jantar.Assistia aos filmes americanos, séria frente à TV acreditava que tudo que via era "Ingraterra".Juntou em alguns anos a quantia suficiente, arrumou suas malas, penteou o longo cabelo pintado de loiro e foi à luta.No aeroporto, a emoção transcendia a razão, embarcaria para a realização de seu sonho.
No balanço das nuvens, sabia exatamente o que faria na chegada. Instalar-se num lugar qualquer, conhecer alguém que lhe utilizasse a carne, e com um tempo, curto espaço de tempo, encontraria seu par.Os primeiros passos em solo extrangeiro foram como passos dados sobre nuvens. Só ela sabia o quão difícil fora chegar ali. Anos tortuosos, apenas coloridos por um desejo maior que a própria dor. Léonie foi a responsável pelos documentos, fotos, e dicionários, elementos que segramente na concepção da menina eram os únicos quesitos necessários para sua viagem. O custo dessa ajuda foi alto, além dos clientes rotineiros, homens fedendo à graxa e adúlteros violentos, atendia às necessidades secretas de Léonie. Nas noites de sábado, entrava no quarto da madame ao entardecer, tomavam vinho, trocavam palavras soltas, deitavam-se e lentamente entregavam-se aos indubitáveis prazeres que somente uma mulher poderia dar a outra. Embora não contente inicialmente, Rita fora se acostumando ao dúbio temperamento de sua patroa, a aos poucos soltava seus gemidos guardados, o gozo que antes fingido, ali era molhado, concomitante ao falso remorso, feminino sob os lençóis de algodão floridos. Era necessário manter a rotina das horas de pecado, o futuro dependia da manifestação antes inimaginável de seus instintos naturais.Aprendeu mais palavras, algumas frases, associava à sua língua materna as pequenas partículas de léxico adquiridas.Chegou ao tão aguardado e provável paradisíaco destino.Ao chegar na imigração, tirou da bolsa o passaporte, não queria abrir a boca. Rezou mentalmente uma oração ensinada por sua mãe, contemplou o céu acinzentado através dos vidros, respirou profundamente como animal acuado, não entregaria facilmente suas armas, nem deixaria um lágrima manchar seus olhos de preto.
Todos sabem que em países como a Inglaterra, onde tudo simula superioridade, a segregação é presente e atuante. Para aquela moça de aparência forçadamente elegante não poderia ser diferente. Ao entregar os documentos, olhar fugitivo, amedrontamento explícito e mãos suadas.Nada do que ouvira fora assimilado. Alguns minutos depois estaria numa sala fria, confusa, faminta, Rita segurava a emoção do desespero e conservava a esperança. Uma voz apressada lhe cortava os ouvidos. Nada era nítido.As palavras que treinara para usar ali, não sairam do fundo da memória.
As relações rizomáticas de Rita, ali nada mais eram do que uma lembrança distante dentro de um novo mundo repleto de sinais, para ela enigmáticos. Os homens e mulheres que acariciavam-na, agora eram imagens distantes diante do terror que era sua total alienação perante aquele cenário._ "Me solta daqui, seu moço, eu falo ingrês".Só via rostos sem expressão e nenhuma resposta. Subitamente quatro homens vieram em sua direção, adentrando abruptamente naquela sala fria. Um objeto não identificado feriu seu corpo, a dor alastrava-se rapidamente. Entorpecimento da alma... Sangue sujo, estrangeiro, pobre, pintava o chão da "Ingraterra".Não satisfeitos, aqueles homens arrancaram-lhe a roupa, investigaram-lhe os orifícios, corromperam aquilo que ainda não tivera sido corrompido, seus sonhos.Não sabia mais se em vida ou morte , enxergava uma placa ao longe : " Welcome to England"... O que seria aquilo senão um grande paradoxo?Com a cabeça doendo e ainda tonta, abriria os olhos sobre a hirta barba de seu médico favorito. Ainda faltavam muitas aulas de "ingrês", pensava ela, palavrinhas como "me deixem ficar no seu país", seriam muito úteis na sua grande viagem. E como consta no naturalismo pintado no Cortiço, para evoluir o ser precisa sobressair-se às espécies mais fracas, mas Rita por enquanto, naquele quarto, ainda era a mais fraca.