10 de dez de 2009

Não me mato mais Parte I e II

Não me mato mais


Capítulo I

Por alguns segundos ele era uma homem.
Com a arma na mão sem muitos medos, com uma longa história cheia de vazio, um rosto largo, lindos olhos e alguns cabelos cor de cinza que transpareciam um pouco daquilo que fora marcas de sua existência, a grande parte dela, perdida numa depressão insolúvel, num rio de águas turvas.
A bala que saia feriria um corpo, uma alma muito mais, e dali alçara vôo, um humano que achava não poder mais sonhar, mas que ainda por longas corredeiras de lama se veria passar.
Agora, não muito além da realidade, isso não se detém a um conto espírita, nem apela para um panorama mórbido, onde uma visão ignóbil da vida tenha privilégio. Apenas uma droga de uma realidade surreal, paradoxismos de toda qualidade, das antíteses mais idiotas, aos oxímoros complexos de uma paralisia anacrônica. Difícil? Talvez.

Capítulo II

Por longos anos, viveu sozinho certo homem. Filho de pais amáveis, uma casa confortável, meio aos passarinhos, ares bucólicos de paisagens verdes. Não partilhou seu pão com nenhum irmão, teve todo o mimo necessário para desenvolver síndromes ainda não nominadas, mas sempre partilhadas, insuportáveis manias.
Como cresceu não lembrava, mas numa rua qualquer andava com seus passos lentos, com um terno apertado, um sapato velho e uma maleta quase sem peso.
A rotina o levava dia após dia para um escritório, uma tarefa insignificante o aguardava todas as manhãs; tinha um emprego, um salário, não tinha uma vida.
João, um simples proletário, um diploma guardado numa gaveta velha, sonhos perdidos nas madrugadas fugazes, sobre copos de líquidos variados, fortes líquidos variados. Amigos, poucos conhecidos, relações superficiais, uma inércia que mais parecia uma escolha, não muito nobre, mas para ele cabível para seus contextos.
Filho de uma sociedade individualista até pensara em altruísmo, mas apenas pensara, voltamos à questão da inércia.
Pois bem, depois de anos perdido em poucas perspectivas, sem um grande amor, sem uma chave de um bom carro, sem a companhia de um bom vinho, ele era o oposto do sucesso que alguém poderia almejar. Este alguém, ele mesmo, em algum lugar perdido na sua adolescência.
A saída foi egoísta, ainda tinha os pais vivos, ainda tinha ar nos pulmões, ainda tinha um pinto no meio das pernas. Nada foi capaz de fazer aquele projeto de homem ser realmente um ser ativo na face da terra, a única vez que teve coragem foi com uma arma na mão, arma comprada na mão de um de seus fornecedores de erva.
Apenas um desejo, aniquilar a sua raça!
Apertou o gatilho, o sangue desceu ao chão. Seu corpo caído, ali ficaria por alguns dias, mas não vale nem saber quem o recolheria.

Por: Cristiane Felipe

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